quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Marcha pela Humanização do Parto em Salvador

Sábado 19 de outubro de 2013

Concentração no Cristo da Barra 9:00 h da manhã, saída 9:30 em direção ao Hospital Português.

Clique aqui, fique por dentro e sinta-se a vontade para construir conosco esse movimento.  

O ato pretende chamar atenção para a Humanização do Parto e apoiar profissionais de saúde e Instituições Púbicas e Privadas que seguem as evidências científicas atuais, as recomendações do Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde.

No próximo sábado e domingo (19 e 20 de outubro), a partir das 9 horas da manhã, famílias, ativistas e profissionais de Saúde farão manifestos em diversas cidades do país em prol da Humanização do Parto.
A iniciativa partiu de grupos de mulheres que se articularam via rede social depois de alguns episódios contrários ao trabalho de profissionais de saúde e Instituições Públicas e Privadas que atuavam de modo coerente e de acordo com os estudos atuais sobre assistência ao Parto e as recomendações do Ministério Público e Organização Mundial da Saúde (que leva em consideração o respeito ao protagonismo da mulher e uma experiência respeitosa de nascimento, contra a realização de procedimentos invasivos sem indicação clínica). Hoje, infelizmente, sabemos de alguns Hospitais e Casas de Parto, obstetras, obstetrizes, doulas que vêm sofrendo uma restrição velada.
A manifestação dá continuidade a uma série de atividades que vêm ocorrendo desde 2012, quando foram realizados os primeiros protestos, com participação de 32 cidades. Este ano, o ato também será nacional e até agora 15 cidades já estão confirmadas.
Em São Paulo, a Marcha tem como principal objetivo cobrar celeridade da Justiça Federal no julgamento da Ação Civil Pública encaminhada pelo Ministério Público Federal em 2010 sobre número excessivo de cesarianas realizadas no sistema de saúde suplementar.
O Movimento pela Humanização do Parto afirma, ainda, que não é contra a realização de cirurgias cesarianas, mas considera que elas devem ser feitas apenas quando há risco envolvido e comprovado para mãe ou bebê e não de forma eletiva e fora do trabalho de parto, como tem ocorrido em todo país.
Em repúdio à decisão arbitrária em punir profissionais e Instituições que praticam a Assistência Humanizada ao Parto foi idealizada uma nova MARCHA. Entre as reivindicações, além da defesa pelo direito à liberdade de escolha, pela humanização do parto e nascimento e pela melhoria das condições da assistência obstétrica e neonatal no país, também está a denúncia às altas taxas de cesarianas que posicionam o Brasil entre os primeiros colocados do ranking mundial. A frequência dessas cirurgias aumentou de 37,8% para 52,3% de todos os partos realizados entre 2000 e 2010 na rede pública e nos hospitais privados chegam à vergonhosa margem de mais de 80%. Os dados chamam atenção da Organização Mundial de Saúde, que recomenda que a taxa de cesariana, tanto na rede pública, quanto privada seja de apenas 15%. Além disso, a entidade alerta para o fato de que o excesso de cesarianas aumenta a mortalidade de mães e bebês.
Ajude a divulgar!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Adriana Tanese em Salvador. A Alma do Parto: um novo paradigma para a humanização do parto


Imagem inline 1A UNEB, através do projeto de Extensão Acolhendo à Gestação convida você para mais uma roda: A Alma do Parto: um novo paradigma para a humanização do parto. Como moderadora teremos a convidada Adriana Tanese Nogueira, psicoterapeuta de matriz junguiana da Escola italiana de Silvia Montefoschi, formada em Filosofia em Milão (Itália), foi co-fundadora do site Amigas do Parto em 2001 e co-fundadora e presidenta da Ong Parto e Companhia - Associação das Amigas e Amigos do Parto em 2003.Também é escritora e autora dos livros: A Alma do Parto, Mulheres Contam o Parto dentre outros

“O livro de Adriana constitui um rico manancial para reflexões(...) Desvelando-nos o parto com sua riqueza de sentimentos, emoções, sensações, este livro nos mostra as mulheres num estado privilegiado e modificado da consciência, possível de ser experimentado em pouquíssimas situações.” - Dr. Paulo Batistuta Novaes.

Entre conosco nessa roda. Vamos refletir sobre parto normal enquanto processo de ampliação da consciência.

Para fazer sua inscrição clique aqui

LOCAL
UNEB Auditório do Departamento de Ciências da Vida I

DATA e HORÁRIO
27 de Setembro de 2013 | 08:00 às 17:30 h

PÚBLICO ALVO
Evento gratuito e aberto a todos interessados pelo tema.

ORGANIZAÇÃO

Mary Galvão
www.partodomiciliar.blogspot.com

Chenia d’Anunciação
www.doulasalvador.com.br

OUTRAS INFORMAÇÕES
71 3117-2461 (Procurar Chenia)
Email: acolhendoagestacao@gmail.com
Blog: www.unebacolhendoagestacao.blogspot.com
Facebook: http://www.facebook.com/groups/acolhendoagestacao

Pontos a serem abordados

Concepção do corpo
* Significado do parto na obstetrícia moderna: prática e visão.
* Posições e lugares durante o parto.
* A dor no parto.
* Os objetivos do parto.
* Experiência do parto e nascimento

Concepção da relações sociais.
Relações: profissionais-instituições | Relações entre profissionais | Relações profissionais-pacientes |Doulas e acompanhantes |O bebê

Identidade psicológica
* O que sente e como funciona a mente do profissional humanizado
* Psicologia da grávida e parturiente humanizada
* Relações mente-corpo, razão-emoções
* Mecanismos psicológicos de auto-preservação no paradigma humanizante

Perspectiva existencial
* Ser ponte: o sagrado do parto
* Mães e sua iniciação à subjetividade madura
* Busca de sentido: conhecendo-se a si mesmos
* Humanização: uma nova etapa da civilização humana

PROGRAMAÇÃO

Convidada Adriana Tanese Nogueira

8:00 as 9:00 Abertura da roda
9:00 as 10:00h Apresentação do conteúdo
10:00 as 10:30 Intervalo para lanche
10:30 as 11:30 Concepção psicológica e implicações na identidade de profissionais e usuári@s
11:30 as 12:30 - Concepção do corpo: relações de gênero e sociais, práticas obstétricas, escolhas e pontos de vista
12:30 as 13:30 - Intervalo para o almoço
13:30 as 14:00 - Dinâmica de Integração
14:00 às 15:30 - Perspectiva Existencial
15:30 as 16:30 - Plenária para debate
16:30 as 17:30 - A alma do Parto
17:30 as 18:00 - Lançamento do Livro A Alma do Parto da autora.

 Contatos da Adriana Tanese Nogueira

www.ongamigasdoparto.com | www.psicologiadialetica.com | www.atnhumanize.com

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Relato de Parto Domiciliar de Thais Aguiar, nascimento de Tito.


A hora esperada



Dia 19/09 acordei bem, como em todos os dias anteriores. Estávamos com 39 semanas e dois dias e não estava sentindo nada de diferente. Pela manhã tive uma consulta com Dra. Sônia e ela decidiu fazer um toque. Resultado: 0cm de dilatação, bebê alto, colo grosso e posterior. Ela disse que provavelmente demoraria mais alguns dias, mas que isso não é uma regra! Quando saí da consulta liguei para o seu pai e falei que ainda ia demorar! Depois sua avó e sua dinda também ligaram querendo saber novidades! Eu disse para elas que ainda ia demorar! Todos estavam ansiosos, mas ninguém estava desesperado (eu acho), afinal eu "não estava com cara de quem ia parir logo". Fui para casa e passei o dia inteiro sem sentir nada de diferente. Nada mesmo! Só sentia as BH, que desde os 5, 6 meses já me acompanhavam, mas agora estavam bem mais frequentes, é claro! À tarde fui tomar um banho e como sempre fazia, cantei para você:
"Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco..."




No final do dia seu pai chegou do trabalho, comemos alguma coisa e ficamos de bobeira. Lembrei (e enchi o saco) que ele ainda tinha que pintar a luminária da sala. Já fazia alguns dias que eu lembrava (e enchia o saco) que ele tinha que pintar a luminária. Esse dia ele resolveu pintar a luminária! Fiquei até umas 21h e pouco com ele e resolvi ir deitar, estava morrendo de sono. Acordei umas 22h e pouco com uma pontada bem levinha. Seu pai já estava dormindo e eu nem falei nada com ele. Voltei a dormir e acordei de novo com outra pontada levinha. Olhei no relógio, acho que eram 22:30h. Cochilei de novo e outra pontada. Olhei de novo no relógio e tinham passado 10 minutos. Achei melhor levantar, já que não ia conseguir dormir mesmo. Fiquei na sala viajando, pensando em um monte de coisas, a cabeça a mil. As pontadas foram ficando cada vez mais fortes. Eu respirava, caminhava, mexia os quadris, agachava. Definitivamente eu tinha que me movimentar durante as contrações, era muito incômodo ficar parada. A cada contração eu tentava procurar a melhor posição e sempre me preocupava com a respiração, lembrava das aulas de yoga. Eu ainda não estava acreditando muito no que estava acontecendo, achava que poderiam ser só os pródomos. E as contrações foram ficando mais intensas, mais frequentes. 1:20h da madrugada eu peguei um papel e comecei a anotar os intervalos das contrações. Elas estavam meio loucas, às vezes 7, 6, 8 e algumas com 4, 3 minutos de intervalo! As contrações foram ficando mais intensas ainda e umas 4h eu acordei seu pai:
- Coisa!
- Oi! - assustado
- Eu acho que estou em trabalho de parto!
- Meu Deus! Desde que horas?
- Umas 22h e pouco.
- Por que não me acordou antes?
- Por que eu não tinha certeza se era trabalho de parto, e sabia que você ia querer acordar todo mundo!
- Já ligou para Dra. Sônia? Já ligou para sua mãe? Já ligou para Chenia?
- Calma, Exídio. Eu não liguei para ninguém ainda.


Anotação das contrações

Nessa hora me deu uma dor de barriga e eu fui para o banheiro. Seu pai ligou para Dra. Sônia e ela perguntou como eu estava, me lembro de ouvir ele dizendo que eu não estava mais aguentando de dor, ele mal sabia que era só o começo. Ela pediu para falar comigo, mas eu não consegui dizer muita coisa. Depois, ela falou com ele de novo e disse: "Olha Exídio, consegui contar mais ou menos o intervalo de uma contração para outra e a duração, ela está realmente em trabalho de parto. Estou indo!".


Sol nascendo na nossa janela, hora que o papai acordou

Voltamos para a sala e continuei me mexendo durante as contrações. Aliviava muito ficar apoiada no parapeito da janela, movimentando os quadris. Nos intervalos eu ficava parada, concentrada, só esperando a próxima contração.



Menos uma contração

Não me lembro de ter visto ele ligando para sua avó e para Chenia, mas sei que ele ligou logo depois de ter falado com Dra. Sônia. A primeira a chegar foi a sua avó Ita, acho que ainda não tinha dado 7h.


Cafuné da vovó Ita


Abraço que acalma

Logo depois chegou Chenia, a nossa doula. Conversamos um pouco e minha mãe resolveu sair para comprar algumas coisinhas e a piscina, pois na última consulta Dra. Sônia tinha dito que a dela não estava muito boa. Neste intervalo a Dra. chegou e trouxe a piscina dela, acho que tinha mandado ajeitar. Ficamos batendo papo, Chenia começou a fazer umas massagens. Eu estava meio desorientada, a partir daí já não lembro de todos os detalhes.


Massagem de Chenia, carinho da vovó e companhia de Lola


Descanso na bola de pilates

Dra. Sônia pediu para fazer um toque: 4cm de dilatação, colo posterior, bebê ainda alto e dorso à direita. Ela mediu também os seus batimentos cardíacos e estava tudo ótimo com você.


Batimentos cardíacos

Me lembro dela ter dito: "Tai, o que faz a dilatação aumentar é o movimento. Você não pode ficar parada. Por que não vão fazer uma caminhada na praia? Eu tenho umas coisas para resolver no consultório, mas não demoro."
Coloquei um vestido e umas 11:30h fomos eu, seu pai, sua avó e Chenia para a praia. Tive contração no elevador, na garagem e várias no carro. As do carro foram as piores. Paramos em uma praia bem vazia aqui em Amaralina, colocamos nossas sandálias embaixo de um barquinho na areia e fomos caminhar.


Energia boa que vem do mar

Quando vinham as contrações eu me agachava. Aliviava ficar de cócoras, assim melhorava muito!


Menos uma

Eu e seu pai acabamos nos afastando um pouco e ficamos juntos, caminhando e sentindo cada contração.


Com o papai

Abraço bom

Para o meu joelho não machucar na areia colocávamos uma canga no chão. Uma hora alguém foi lavar a canga no mar e ela se foi, acho que pode ter sido para Iemanjá. Outra hora eu e seu pai estávamos caminhando e uma onda veio de surpresa e nos molhou. Passamos umas duas horas caminhando e pedi para voltar para casa, já estava ficando bem cansada.


O mar abençoando o nosso momento

Quando fomos pegar as nossas sandálias, percebemos que alguém já tinha levado!!! Meu Deus, como podem roubar uma grávida em trabalho de parto?
Voltamos para casa por volta de 13:30h e Dra. Sônia já estava nos esperando.
Tomei um banho quente e demorado, depois fiquei me movimentando, sentei na bola de pilates, agachava, fazia de tudo para amenizar a dor imensa que eu sentia na lombar. E o que me fazia sentir bem, muito bem, eram as massagens de Chenia! Nossa, aquilo era meio milagroso!


Massagem de Chenia

Até então a minha bolsa não tinha estourado e Dra. Sônia perguntou se ela poderia romper artificialmente e eu neguei de cara. Umas 16:30h ela me examinou de novo, resultado: 7cm de dilatação (uau!), mas o colo ainda estava posterior e você ainda estava alto. Os seus batimentos continuavam ótimos, e era muito bom saber disso. Acho que foi nessa hora que ela fez uma manobra para trazer o colo para a posição certa. Aquilo doeu muito!


Amor

Seu pai teve o maior trabalho para encher a piscina, foram muitas idas e vindas com baldes de água e para completar acho que ela estava vazando, aí mais trabalho ainda! Dra. Sônia disse que eu poderia entrar na água. Achei ótimo, fiquei feliz, pois tinha muita vontade e muita expectativa que você pudesse nascer na água, filho. Foi um momento de tranquilidade, de alívio. Chenia me fazia as massagens, sua avó jogava água quentinha nas minhas costas e cantava para a gente.

A presença dela foi muito importante para mim, e foi ótimo o modo como ela se comportou. Sempre discreta, me trazia força e segurança e ao mesmo tempo não invadia o nosso espaço. Fiquei cerca de 1:30h na água e as contrações desapareceram. Dra. Sônia sugeriu que eu saísse e só entrasse de novo mais tarde, pois não era legal que o trabalho de parto estagnasse.


Alívio na banheira

Nessa hora seu pai ficou mais colado ainda em mim. Ficamos rodando a casa inteira, e ele sempre segurando a minha mão. A presença dele me deixava mais segura, as palavras dele me deixavam mais calma. O que seria de nós sem ele, filho?


Tive contrações na sala, no quarto, no chuveiro. E sempre que vinham as contrações eu me agachava, era instintivo. E eu sempre chamava: Cheeeenia! E ela vinha fazer as massagens. Sua avó e seu pai bem que tentaram também, mas nada era como a massagem de Chenia.
Lembro de terem me oferecido comida, mas eu não podia nem pensar em comer nada. Acho que durante todo o dia eu tomei só um chá de canela, comi uns gominhos de tangerina e umas rodelas de abacaxi. A única coisa que eu queria mesmo era água. Lembro de ter bebido muita água.

O Sol já se pondo

O tempo foi passando, as contrações foram apertando e eu tinha a sensação que ia me quebrar ao meio. Lembro que falei para a sua avó: “Mãe, parece que tem alguém abrindo os meus ossos com a mão” e ela sorriu e disse: “Mas tem! É Tito querendo passar”.
Mais tarde Dra. Sônia veio conversar comigo e falou de novo em romper a bolsa, disse que isso aceleraria um pouco o processo, que eu já estava há quase 24h em trabalho de parto. Conversei com seu pai e então decidimos autorizar. Ela rompeu e doeu um pouquinho. Na hora eu senti uma água quentinha escorrendo, olhei e estava bem clarinho. Fiquei aliviada de não ter sinal de mecônio, mas o que eu queria mesmo era ter sentido a bolsa rompendo naturalmente. Acho que toda mulher que sonha parir imagina um dia a bolsa rompendo.
As contrações realmente ficaram mais fortes, e eu já estava exausta. Falei que não ia aguentar, que precisava de uma anestesia e que queria ir para o hospital. Dra. Sônia riu e disse que eu tomaria as decisões, que se eu quisesse, nós iríamos sim para o hospital e lá eu tomaria uma anestesia. E ela reforçou: “É isso mesmo que você quer?” e eu disse: “Não!”. Nessa hora todo mundo riu. Depois eu soube que ela falou com o seu pai: “Isso é normal, e é um ótimo sinal! Sinal que já está perto da hora!”.


Será esse o nosso limite?

Seu pai achou que a trilha sonora estava muito tranquila e teve a idéia de colocar uma música mais agitada. Acho que ele escolheu Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga e deu certo, me deu um fôlego extra! Lembro que ele, vendo o meu cansaço, tentava o tempo inteiro me animar e até me chamou para dançar - eu devo ter feito uma cara muito feia nessa hora!



Papai ajudando

Continuamos andando a casa toda, mas já estava quase sem forças para ficar em pé, para ficar de cócoras. Eu precisava que alguém me segurasse, me carregasse. E esse alguém foi seu pai, que ficou o tempo inteiro comigo, filho. Nos olhos dele eu sentia que ele queria dividir comigo aquela dor que era só minha. E eu transferi parte dela apertando muito ele, e ele sempre me falando que eu era forte, que estava perto, que nós estávamos conseguindo.


Exausta e sem forças

Eu disse que queria fazer cocô e Dra. Sônia disse: “Ótimo, Tai! Pode fazer força, mas acho que não é cocô! É Tito chegando!”. E a cada contração vinha uma vontade de fazer força e de gritar. O grito me ajudava, trazia um pouco de alívio.
Dra. Sônia viu que a sua cabecinha já estava aparecendo, todos ficaram animados e eu fiquei totalmente confusa. Ela sugeriu que eu colocasse a mão para sentir. Filho, foi uma coisa muito louca, muito estranha. Eu esperava sentir uma coisa rígida, e meus dedos tocaram uma coisa bem molenguinha. Na hora eu falei: “Ai! É mole! Eu não quero mais sentir!” e então ela perguntou se eu queria ver com um espelhinho e eu neguei também. Engraçado que quando eu imaginava o nosso parto eu sempre me imaginava querendo ver pelo espelho, querendo tocar a sua cabecinha coroada, e aconteceu tudo ao contrário.
Entrei de novo na banheira, fiquei um tempinho e você que já estava coroando, subiu novamente. Nessa hora eu fiquei muito agoniada, não entendia porque quando eu entrava na banheira tudo regredia. Fiquei triste. Dra. Sônia disse que se eu quisesse poderia ficar, mas eu disse que não, que queria sair, que queria que você nascesse logo.


Exausta e ansiosa

Tentei ficar de cócoras, e não tinha mais força para me sustentar. Tentei ficar ajoelhada e também não aguentei.


Em busca da melhor posição

Comecei a ficar incomodada e acabei fazendo o que não imaginei que faria: fiquei deitada e foi melhor assim. E você demorou filho. Não sei o tempo, mas a sensação era de uma eternidade. Será que essa demora foi por causa do seu dorso à direita? Por algum tempo você ficou subindo e descendo, e isso me deixou angustiada. Dra. Sônia achou que deveria ajudar intervir, e acabou empurrando a minha barriga. Na hora eu nem liguei. Eu sentia que você já estava bem perto, senti queimando tudo. Nessa hora seu pai já tinha deixado a máquina com sua avó e veio ficar bem pertinho, estávamos em uma sintonia muito boa. Conversamos muito sobre o parto durante a gravidez, e ele foi perfeito. Participou ativamente e intensamente de todo o processo, e isso foi essencial.


Mais algumas contrações e de repente, saiu a sua cabeça. Eu não quis olhar, não quis tocar novamente. E depois, muito rápido, em outra contração saíram os ombros e você escorregou. Eram 23:15h do dia 20 de setembro. Você veio para mim na mesma hora, não chorou, mas ficou resmungando baixinho. Nunca vou esquecer a sensação de abraçar o seu corpinho quente, grudado em mim através do cordão umbilical. Ainda éramos um só.


Seja bem vindo, meu filho!

Naquela hora não existia mais dor, mais preocupação, mais angústia, mais nada. Só existia o amor. O amor que eu achava que já era infinito quando você ainda estava na minha barriga. Filho, eu não sabia até onde ia o infinito!



O maior amor


Eu e seu pai ficamos juntinhos com você, e esse momento durou uma eternidade. Não sei quanto tempo foi, mas a sensação foi de eternidade. Coloquei você no meu peito e você só me lambeu. Seu pai chorou feito criança, e ele tem o choro mais lindo que alguém pode ter. Eu não cansava de te olhar, de olhar para o seu pai te olhando! Nós três ali, naquele momento, éramos o suficiente para a nossa felicidade.


Reconhecimento


"Bem vindo meu novo ser
cercado de proteção
de tanto amor tanta paz
dentro do meu coração

É como se eu tivesse esperado
toda a vida pra te embalar"

 
A melhor sensação

A placenta saiu logo depois, e não me lembro de ter sentido dor. Depois de algum tempo Dra. Sônia achou melhor te examinar. Seu papai cortou o seu cordão umbilical e foram todos para o seu quarto para a Dra. te examinar. E da sala eu escutei o seu chorinho. Acho que você estava com um pouco de dificuldade para respirar, então ela pediu que sua avó segurasse a mangueirinha de oxigênio pertinho do seu nariz.


Papai cortando o cordão umbilical

Não demorou nada e logo você voltou para a mamãe. Ficou no meu colinho e ainda não quis mamar, mas continuou me lambendo. Filho, o seu cheiro era o melhor cheiro do mundo, seu pai disse que parecia um cheirinho de churrasco. Até hoje tenho flashback do cheiro (se é que isso existe). E fico feliz toda vez que esse cheiro vem na minha memória.


O cheirinho da mamãe

Seu pai e sua avó começaram a ligar para todo mundo. Logo depois seu avô Exídio, sua avó Licia e sua Dinda chegaram. Eles estavam ansiosos para conhecer a coisinha mais linda do mundo!
Mais tarde me levantei e fui para o quarto para a Dra. suturar a laceração que eu tive. Incomodou um pouco, mas nada me tirava daquele estado de graça. Seu pai ficou te segurando, com o maior jeito, lindo! Parecia até que já tinha segurado um recém-nascido. E abraçadinho com você ele subiu na balança para te pesar: 2.900kg. Tomei um banho e ficamos na cama, te admirando, te amando. Ali você mamou. Mamou como se já tivesse feito isso antes. E assim, juntinhos, ficamos nós três. Mais tarde me bateu uma fome digna de quem tinha passado um dia inteiro sem comer! Contrariando todo mundo eu levantei e sentei na mesa para comer pizza! Eu merecia! Já passava de 2h da manhã e me dei conta que já era dia 21, o dia do meu aniversário. Nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar que ganharia um presente de aniversário tão lindo! Você foi o meu melhor presente, Tito!


O leitinho do amor


O melhor presente

Sem dúvida foram as 25 horas mais intensas da minha vida. Senti muita dor, achei que não ia suportar, me chamei de louca. Mas tudo isso passa, e só ficam as coisas boas. Eu queria que algumas coisas tivessem sido diferentes. Se pudesse voltar atrás teria me alimentado melhor para ter mais energia no expulsivo, não teria aceitado o rompimento artificial da bolsa e teria esperado mais um pouco na piscina. Mas, mesmo assim, tenho muito orgulho da forma que escolhemos para te receber. Tenho muito orgulho de você, que fez o seu trabalho direitinho e já provou que é retado! Tenho muito orgulho do seu pai, que aos poucos foi comprando a minha idéia e se tornou o maior defensor do parto natural. Ele é um companheiro no melhor sentido que esta palavra pode ter, e eu amo isso nele. E pode ter certeza, filho, que o amor que eu sinto por ele hoje é bem maior e mais maduro. E sem modéstia, tenho orgulho de mim também. Sei que fui forte e guerreira, mas sei também que isso foi só o começo.


Meus dois amores

Nunca imaginei que caberia tanto amor dentro de mim. Um amor diferente, puro, tão forte que dá nó na garganta. Um amor indescritível, que tantas pessoas tentaram me descrever e que eu, da mesma forma, tento descrever sabendo que estas palavras não serão suficientes. Prometo, filho, que vou passar a nossa vida inteira tentando fazer você entender o tamanho desse amor.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Como atender um Parto Humanizado - passo a passo

Texto da Ana Cristina Duarte

20 de março de 2013 às 23:11
 
Você, médico ou enfermeira obstetra, está lá de plantão no seu canto. Não aguenta mais aquele papo de quem vai pro paredão do BBB.
Chega a gestante em trabalho de parto. Vamos supor as seguintes condições:
- Fez pré natal e não há nada de anormal
- Ela está em trabalho de parto (contrações efetivas, 2 a 3 contrações em 10 minutos)

Eis o que fazer:

1) Sorria. Apresente-se com um aperto de mão, diga seu nome e sua função na instituição. Cumprimente o acompanhante. Parabenize-a pela chegada do bebê. Só faça elogios. Não faça críticas, nem piadas. Seja simpático e sorridente, sem ser 'engraçadinho'. E definitivamente essa não é a hora de julgar falta de pré natal, excesso de filhos, de peso ou de pêlos. Nada disso é da sua conta. Lembre-se que você está sendo pago por esse serviço, que aceitou voluntariamente. Lembre-se que, em última instância, são elas que pagam o nosso salário. Dica: se estiver cansado, preocupado, estressado, com um difícil plantão, pare antes de entrar na sala de admissão ou de receber o casal. Pare. Respire. Lembre-se que para eles, é uma experiência única e possivelmente a primeira. Eles estão com medo, assustados e ela com dor.

2) Deixe-a à vontade e o mais confortável possível, com liberdade de posição, desde essa fase de triagem. Explique que ela pode parar de responder se vier contração. Aguarde as contrações, sempre que vierem, antes de continuar o seu questionário. Pergunte os dados que você precisa para o preenchimento da ficha da admissão. Ofereça uma camisola da instituição, sem obrigá-la a usar.

3) Peça que aproveite logo após o final de uma contração para se deitar em maca com encosto elevado pelo menos 45º. Diga que tentará ser o mais rápido possível. Instale a cardiotocografia de admissão, explique que é para avaliar os batimentos cardíacos do bebê. Verifique temperatura, pulso e pressão arterial. Tire termômetro e manguito de pressão tão logo termine as medidas. Peça licença para examinar a dilatação. Espere ela concordar. Seja delicado. Use gel lubrificante. Não force o colo. Não tente abrir mais do que já está. Pense em como você gostaria que um profissional examinasse internamente sua esposa, sua irmã, sua filha. Apenas avalie rapidamente, dilatação, esvaecimento, posição e altura. Diga a ela com quantos centímetros ela está de dilatação e dê parabéns, novamente. Diga que ela pode continuar o exame do coração do bebê em qualquer posição, inclusive de pé. Após os 20 minutos necessários, desligue imediatamente o aparelho e, caso esteja tudo bem, informe esse dado. Caso não esteja tudo bem, diga o que o preocupa, sem inflacionar a informação, e explique que você já vai cuidar disso com a maior rapidez possível.

4) Supondo que ela já esteja com pelo menos 4 cm de dilatação e contrações efetivas, ou seja, na fase ativa do trabalho de parto, instale-a com o acompanhante, de preferência numa sala individual (não coletiva). Mostre onde tem banheiro, água, telefone, local para caminhar, banheiro para o acompanhante, chuveiro, bola, e tudo o que pode ser útil. Se ainda for fase inicial, explique que é complicado internar assim tão precocemente. Incentive-a a voltar pra casa por algumas horas (se for perto) ou a dar um passeio a pé, até as contrações ficarem mais fortes.

5) Não realize lavagem intestinal, nem tricotomia, nem qualquer procedimento de rotina na internação. Não ligue soro com ocitocina. Deixe o trabalho de parto evoluir normalmente. A ocitocina só deve ser utilizada em casos de distócia de progressão. Lembre-se que a ocitocina pode causar anóxia e óbito fetal. Ocitocina não é remédio pra "ajudar". Ocitocina é uma droga potentísssima e perigosa.

6) Não rompa bolsa, a não ser em caso de distócia de progressão ou de sofrimento fetal (para verificação de mecônio). Deixe que a natureza se encarregue disso. Se nada for feito, a bolsa se romperá naturalmente entre 7 e 10 cm de dilatação, ou durante o período expulsivo. Ruptura artificial da bolsa das água é o maior fator de risco para prolapso de cordão.

7) Examine apenas o necessário. Tirando a ausculta fetal, que é fundamental para sabermos a vitalidade do bebê, não há porque ficar fazendo toques vaginais de hora em hora. Na fase ativa, podem haver intervalos de até 4 horas entre um toque e outro. Não deixe que mais de um profissional realize o toque. Peça licença. Pergunte se ela prefere que seu acompanhante permaneça ou saia durante o exame. Não assuma que você sabe como ela se sente, nunca! Sempre elogie o progresso, e como ela é forte, e como ela está lidando bem com o trabalho de parto. Se a bolsa estiver rompida, especial cuidado! O parto pode demorar quantas horas for necessário com a bolsa rompida, mas os exames de toque aumentam o risco de infecção. Quando necessário tocar, use luvas estéreis, principalmente no caso de bolsa rota. Hoje em dia existem luvas para toque plásticas, estéreis, embaladas individualmente e de baixo custo.

8) Se for realizar cardiotocografia, não deixe o aparelho ligado por mais de 20 minutos, explique que o alarme não significa problemas, que em geral é porque houve perda do foco pelo aparelho, desligue imediatamente logo após terminado, e dê liberdade de posição durante o exame. Não é necessário que a mulher esteja deitada.
 
9) Incentive a mudança de posição, deambulação, banho de chuveiro e banheira, uso da bola, descanso em diferentes posições. Não é necessário seguir um circuito pré estabelecido. Explique apenas que ela não está doente e que deve confiar em seu corpo. Explique sobre a importância de não ficar numa só posição o tempo todo. Mostre técnicas de massagem para o acompanhante. Incentive o uso do chuveiro para alívio da dor. Ofereça sucos, água e alimentos.

10) Conforme chegar mais perto do expulsivo, explique os sintomas e peça ao acompanhante que chame caso um desses sintomas seja referido. Não faça dilatação manual do colo, pois esse é o maior fator de risco para laceração de trajeto. Aguarde a evolução natural. Não coloque a mulher "em posição". Dê liberdade durante o período expulsivo. Dê preferência a posições verticais, como a banqueta de parto, por exemplo. Não é necessário realizar antissepsia dos genitais.

11) Deixe a mulher fazer força conforme sente vontade, não fique guiando, gritando ordens ou pedindo que ela prenda a respiração e faça força comprida. Deixe que ela sabe o que fazer. Bebês nascidos sob manobra de Valsalva têm notas de Apgar em média menores do que os nascidos sob puxos espontâneos. Não fique colocando os dedos na vagina dela para "alargar" o canal. A vagina é tecido mole, não segura o bebê. Se for possível abaixe a luz, deixe alguma música (se ela gostar da idéia), fale baixo. Evite falar, na verdade. Faça apenas a ausculta a cada 10-15 minutos. Lembre-se que desacelerações durante a contração são normais, ainda mais no período expulsivo.

12) Dê tempo ao tempo, lembre-se que o período expulsivo de uma primigesta pode levar até 2 horas, às vezes até mais, desde que esteja havendo progresso e a ausculta esteja boa. Quando o bebê estiver coroando, convide a mulher a sentir a cabeça do bebê com a mão, e assim controlar a força e a expulsão. Proteja o períneo com uma compressa. Não empurre o fundo uterino, nem com a mão, muito menos com o cotovelo. A Manobra de Kristeler pode provocar lesão de fígado, de baço, ruptura uterina, descolamento de placenta, fratura de costela e hematomas, entre outros problemas.

13) Dê tempo para a cabeça subir e descer várias vezes, alongando o períneo. Isso evitará laceração. Não corte episiotomia, por favor. O maior risco de laceração de quarto grau ocorre quando se abre uma episiotomia. Lacerações em geral são pequenas, a maioria nem sutura necessita. Cerca de 70% das mulheres saem com períneo intacto.

14) Após a saída da cabeça, não puxe o bebê. Deixe que a próxima contração traga o resto do corpo. Isso pode levar 5 minutos. Lembre-se que o bebê está sendo oxigenado pelo cordão. O bebê pode nascer sozinho apenas com as contrações uterinas. Receba o bebê com delicadeza, enxugue-o delicadamente, sem esfregar. Sinta a pulsação do cordão, se estiver acima de 100, o bebê está bem. Ainda ligado ao cordão, coloque o bebê em contato pele a pele com a mãe e cubra-o, para prevenir a perda de calor. Não corte o cordão. Espere que ele pare de pulsar. Cerca de 1/3 do volume de sangue do bebê está no cordão e placenta. Deixe que esse sangue vá para o bebê.

15) Com a mãe ainda segurando seu bebê no colo, aguarde a placenta sem tracionar. Verifique apenas que o útero esteja contraído. Isso pode te dar a segurança que você precisa para deixar a natureza cuidar da placenta sem intervenções. Se houve fator de risco para hemorragia pós parto, aplique ocitocina intra-muscular e aguarde.

16) Se for necessário suturar, faça-o com anestesia suficiente para que a mãe não sinta dor. Se ela disser que está doendo, acredite: está doendo. A dor faz aumentar a adrenalina, diminuindo a produção de ocitocina: pior para o aleitamento, pior para a hemorragia pós parto. A amamentação na primeira hora de vida é prioridade e é a melhor forma de prevenir a hemorragia.

17) Após a primeira mamada e o cordão já cortado, pergunte se o pediatra pode examinar. Se possível o exame deve ser feito na própria sala de parto. Se não for possível, peça ao pai para acompanhar o exame. Enxugue melhor o bebê, com delicadeza. Corrija o corte do cordão, se necessário. Não aspire um bebê que respira. Pingue o colírio de escolha, de preferência abandone o nitrato de prata, menos efetivo, cáustico e doloroso. Substitua por antibiótico ocular. Deixe vacinas e vitamina K para as horas seguintes ao parto. Pese e identique o bebê. Devolva o bebê para a mãe imediatamente após o exame e diga a ela os dados relevantes.

18) Leve mãe, bebê e acompanhante para o quarto, na mesma maca, e favoreça o alojamento conjunto.

19) Da série "Um plus a mais": obstetrizes/enfermeiras obstetras para todas as mulheres; doulas voluntárias e permissão de entrada da doula contratada pela mulher, analgesia peridural para mulheres que esgotaram todas formas alternativas e não farmacológicas de controle da dor do parto; quartos com ambientação agradável; banheira para relaxamento e para o parto na água (aguarde nota sobre como atender um parto na água); uso de vácuo no lugar de fórceps sempre que possível (e necessário, claro).

20) Da série "Nunca é tarde pra lembrar": residentes e estudantes estão lá para aprender SE e QUANDO a mulher permitir. Mulheres e bebês não são cobaias. Parto não pode ter platéia. Não é humano colocar 6 estudantes observando a vagina de uma mulher. Nâo é humano colocar 6 estudantes e residentes para meter seus dedos nervosos em vaginas de mulheres com dor, assustadas e embaraçadas. Por favor, tome cuidado com a presença dos estudantes e sempre peça permissão à mulher. Sempre!
Por incrível que pareça, essas atitudes são o que chamamos de "Parto Humanizado". Para quem achava que parto humanizado envolvia o canto de mantras, a degustação da placenta e todos pelados na banheira, talvez seja uma decepção. Para quem milita pelo direito a um parto tranquilo para todas as mulheres, do SUS ou do sistema privado, é um grande alívio.

Imprima esse texto e entregue isso ao seu obstetra ou ao hospital público onde vai ter o seu bebê. Explique que é apenas isso que você deseja para seu parto.


Já estava escrito nas pedras!
Já estava escrito nas pedras!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ricardo Jones em Salvador - Lançamento do Livro Entre as Orelhas: Histórias de Parto

 

Lançamento do Livro Entre as Orelhas: Histórias de Parto.


Em setembro o médico obstetra humanista Ricardo Jones estará em Salvador lançando seu segundo livro: Entre as Orelhas-Histórias de Parto.
 
No dia 07 de setembro de 2013 o lançamento será em Salvador, e a cerimônia terá inicio às 17:00 horas.
Local: Hotel Golden Park, Avenida Manoel Dias Da Silva 979, Pituba, Salvador, 41830-000 Brasil ‎0800-762-1295‎.
Fones: Rose Daniele (71) 3013-4786 e (71) 8841-1128 OI  e (71) 9221-9878 TIM
Após o lançamento o autor irá proferir uma palestra, intitulada: Entre Orelhas: o Parto na perspectiva do sujeito.
Após a palestra irá iniciar-se a seção de autógrafos.
Inscreva-se já, e faça a reserva de livros (Entre as Orelhas: Histórias de Parto e Memórias de um Homem de Vidro: Reminiscências de Um Obstetra Humanista (Terceira Edição, Revisada e Ampliada).


Para a confirmação da reserva é necessário efetuar depósito bancário ou pagamento de BOLETO.

V A L O R E S 

1 Palestra: R$ 70,00 por pessoa
1 Livro: R$ 40,00 por livro
1 Palestra e 1 Livro: R$ 100,00
1 Palestra e 2 Livros: R$ 135,00
Até o dia 21/8/2013 voce tem 5% de desconto

Para outras combinações entre em contato pelo email: historias.de.parto@gmail.com Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

P A G A M E N T O


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Banco do Brasil, Agência:6809-8, conta corrente: 19.572-3 em Nome de Marcilha A B Louzada
Envie copia do comprovante para historias.de.parto@gmail.com Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
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P A T R O C Í N I O

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Relato de Parto Maria Elaine. Nascimento de Bernardo

Relato de Parto – Maria Elaine e Bernardo. 
19 de Março de 2012
Parto no Centro de Parto Normal da Mansão do Caminho

Relato de Parto – Elaine e Bernardo.

(Escrevendo de novo porque perdi tudo na primeira vez...)

Engravidei no início de julho, mas só no início de agosto eu fui descobrir... A descoberta: estava trabalhando em SP e recebi uma ligação no início da manhã de uma amiga querida: - Sonhei que você estava grávida!  E eu quase que de sacanagem, durante a noite, passei numa farmácia pra comprar um teste (pra mim era super normal ter a menstruação atrasada, pq tenho ovário policístico, endometriose e outras coisas complicadoras de gravidez). Fiz: POSITIVO? Liguei pro Lucas: - De novo essa brincadeira, amor? Eu:  - Gostaria muito de estar brincando... E assim começo a história! Ficamos unidos, mas confusos, buscando informações enquanto anunciamos para todos a grande novidade não planejada.  Daí uma querida amiga de Recife, a Carina Albuquerque (doula em formação) veio conversar sobre o processo da gravidez e me falou sobre a doulagem. Eu: - Ahn? Doula? É de comer? Pesquisei... Decidi com o Lucas: - queremos e precisamos de uma doula! Pesquisamos e achamos a Chênia, uma fofa, super embasada, cheia de informações interessantes e desconhecidas. A essa altura eu j[a havia trocado de médico umas 3 vezes... nenhum me satisfez! Achei um que considerei bom, e continuei me informando sobre partos. Enfim... Defini: parto natural na casa de parto de Salvador, recém inaugurada! A essa altura também sabia que um parto natural em hospital com meu obstetra não rolava mesmo, mas não me sentia tão segura de parir em casa. Definimos e ficamos quietos porque nem todo mundo ia entender e iríamos ser tachados de irresponsáveis (como fomos quando minha mãe soube que o neto dela nasceu numa casa de parto, mesmo dando tudo certo).
Enfim, 38 semanas e 3 dias. Um dia depois de pedir a licença do trabalho, acordei e vi sangue meio melecado numa das inúmeras idas ao banheiro! Liguei pra Chênia as 5h da manhã, tadinha, e fiquei com medo... Fui pra Casa de Parto!  1cm de dilatação! Ah, isso poderia durar dias! Nem encanei, mas de todo modo eu fui me preparando pra tudo. Arrumei a mala do Bernardo, a minha, limpei o quartinho dele... Fomos almoçar fora, passeamos a tarde, caminhei, namoramos, tomei chá de canela, recebi um casal de amigos de Recife, fomos jantar fora... Enfim, tava tudo normal, e eu com contrações irregulares e sem dor.
No outro dia, também estávamos bem tranquilos, levando as atividades normais, nos preparamos (caminhada, banho quente na bola, namorinho, chá... ) As 16h, a primeira contração dolorida... Fui pra piscina! 16:07, 16:15, 16:23... Ritmadas e doloridinhas... Contamos 7 e eu falei: estou em TP! Vamos sem erro... Liguei pra Chênia, ainda meio sem querer alarmá-la. Durante o caminho eu não tive dúvida: Chênia, vem logoooooo!
Cheguei lá em plena contração... Dei todos os documentos na recepção, e fui direto pro banheiro... Contrações fraquinhas comparadas com o que eu iria passar, ainda não me achava na partolândia! Admissão: 3 pra 4 centímetros, colo fino... Me internaram. As técnicas fofas vieram me acompanhar pra sala 1 de PPP, a que tem banheira! Mas, tava quebrada... =(. Elas elogiaram meu bom humor e minha calma (cheguei sorridente e simpática com todos, tava adorando estar ali). Contrações mais curtas, mais doloridas, mas ainda com brincadeiras com o Lucas... Tiramos fotos no chuveiro, sentada na bola, fazendo pose de modelo, sinal de legal no meio das contrações. Aí chega a obstetra, nem guardei o nome... Achei ela meio chatinha, tipo, o santo não cruzou, mas nada que me tirasse do processo lindo que estava. Ela me explicou como era o esquema do partograma, e se por acaso tivesse algo de errado, quando ela deveria agir (transferir pra um hospital pra cesária)... Achei interessante ela ir me explicar, mas não gostei muito da abordagem. Enfim, nada daria errado, e isso não me abalou... Daí, chega a Gertrudes, enfermeira obstetra: - Senta no cavalinho que eu vou te partejar!... Ai, gente, que sonho de parteira... Ela usou aromas de flor de laranjeira e capim santo, me massageou pra aliviar as dores, e eu tava me sentindo muito bem, mesmo já estando com contrações fortes. Foi minha entrada na partolândia... Dor, dor, dor, transe... Chênia chegou, depois que a Gertrudes falou com as pessoas certas para autorizarem a entrada dela na CP (só pode um acompanhante). Ufa, silêncio, exame: 7 cm! Esta indo muito bem... Contrações longas e ritmadas. Só queria abraçar meu marido! 
Chênia me massageou um pouco no cavalinho, mas não era meu lugar. Deitei, mesmo sabendo que poderia doer mais, e que as massagens iriam ficar mais difíceis. Lucas me ajudou a respirar bem... Exercício de três pessoas (eu, ele e Bernardo). Estavamos tão integrados... Foi lindo. Dor, dor, dor... A obstetra  veio me falar de romper a bolsa. Eu falei: - E se eu não quiser? Ela: - Ainda estou em condição de negociar... Podemos deixar pra depois. Deixamos... Eu em transe, fui tomar banho! Meu marido foi pra debaixo do chuveiro comigo, se molhou todo, mas era o apoio que eu precisava. Fui ver o céu, que tava lindo lá fora, fui fazer minhas orações.. Minha mãe ligando, pense numa agonia (bem que Lucas falou!), mas tava tudo bem! Pensei: vou autorizar estourar a bolsa. Sábia decisão! Na hora o Bernardo respondeu: 9cm de dilatação e Bernardo cada vez mais baixo, LA claro, batimentos ótimos! Fiquei tão animada que ainda fiz uma brincadeirinha intima com meu marido... Ele riu baixinho no meu ouvido e falou: safada! Rs... Fui  no banheiro pq tava com vontade de fazer cocô... Arriei nos braços do Lucas na contração mais forte que tive e saiu tudo de lindo: cocô, xixi, LA...  Tava nem aí! Depois disso, formos pra cama e eu me coloquei de quatro pra fazer força, senti necessidade de fazer força, era instintivo! Fiz força algumas vezes e fui pra posição final, semi deitada com as pernas bem abertas! Vem Bernardo, vem meu filho... E ele ouviu, mas eu tava muito cansada! Ele tava bem (o batimentos estavam bons), e todos ficaram me esperando... E eu pegando forças num sei de onde, concentrada com cara de poucos amigos! Fiz umas 5 forças, guiada pela Gertrudes pra evitar laceração... Me colocaram ocitocina pra me ajudar, mas NÃO CAIU UMA GOTA (huahuahua).

Enfim, Bernardo veio, cabecinha pra fora, uma circular de pescoço, corpinho pra fora as 0h01min de 19 de março de 2012, 2 pontos de laceração... Veio  a placenta! Agradeci a ela por nutrir meu filho... E nós alí, nos namorando, eu, Lucas e Bernardo! Foi lindo... Perfeito, natural, tranquilo. E eu sou a mãe mais babona do mundo! Obrigada a todas as mulheres que me inspiraram e me ajudaram a estar fazendo esse relato lindo, que resume por alto o momento mais importante da minha vida! <3

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Filme O Renascimento do Parto em Salvador-Bahia



O filme "O Renascimento do Parto" retrata a grave realidade obstétrica mundial e sobretudo brasileira, que se caracteriza por um número alarmante de cesarianas ou de partos com intervenções traumáticas e desnecessárias, em contraponto com o que é sabido e recomendado hoje pela ciência. Tal situação apresenta sérias conseqüências perinatais, psicológicas, sociais, antropológicas e financeiras. Através dos relatos de alguns dos maiores especialistas na área e das mais recentes descobertas científicas, questiona-se o modelo obstétrico atual, promove-se uma reflexão acerca do novo paradigma do século XXI e sobre o futuro de uma civilização nascida sem os chamados "hormônios do amor", liberados apenas em condições específicas de trabalho de parto. FOTOGRAFIA: CAROL DIAS

Estréia em Salvador do filme O Renascimento do Parto dia 23/08/2013 no cinema do Espaço Itaú (Glauber Rocha)







Relato de Parto - VBAC* Domiciliar - Hellen e Levi

Relato de Parto - VBAC* Domiciliar - Hellen e Levi

* Vaginal birth after cesarean ou seja, parto normal depois de cesárea.

Na minha primeira gestação em 2009, eu engravidei depois uns 15 dias de relacionamento com uma pessoa que eu mal conhecia. Costumo dizer que foi uma puta sorte: podia ter sido um encontro de azar com um cara bizarro, mas não, minha linha do destino cruzou com a dele e ele era O cara. Eu tinha acabado de completar 22 anos e minha mãe disse que eu fosse ter aquela criança em qualquer lugar, mas lá não. Thiago me tirou de lá em 2 dias, arranjamos um lugar pra morar uma semana depois e toda a convivência girava em torno de nos conhecermos.

Desde o início eu perambulava pela GPM do Orkut, lia muita coisa e ficava boiando por aí. Fui indicada pra um médica que tinha feito as duas cesarianas da minha cunhada (estava prestes à fazer a terceira) e era chefe de plantão da maternidade que meu cunhado que é enfermeiro trabalha. Conversei com ela à respeito do meu desejo por um parto normal, e ela só me dizia: “Ainda é cedo pra pensar nisso.” Gravidez basal, 1000 ultrassons, tudo dentro dos conformes. Quando eu paro pra pensar, é bem claro que eu queria querer um parto normal, mas todos os poréns fizeram com que não passasse de uma vontade vaga, uma simpatia pela causa, eu não tinha fundamento, eu não sabia o que era uma cesárea e muito menos do que meu corpo era capaz. Eu era uma menina. Quando às 38 semanas a médica me disse: “Vamos marcar pra segunda?”, só tive uma sensação: vazio. Não dei resposta e fui pra casa pensar em outras possibilidades. E quais eram elas? Não conseguia enxergar nenhuma. Thiago disse que a decisão era minha, ele me apoiaria, como se me dissesse: “Me desculpe, não posso decidir isso por você.” Eu não tinha plano de saúde, nem dinheiro, a médica estava me oferecendo a cesariana numa bandeja, com horário marcado, com meu cunhado acompanhando a cirurgia. O esquema estava todo armado. O que eu ia querer? Ir pra vários hospitais, não achar vaga, entrar sozinha, sofrer, não ter ninguém por perto? Eu não tinha coragem pra bancar um parto sozinha. Tive medo. Medo da dor, da solidão, dos maus tratos, do desconhecido. Agendei. Não fiquei feliz, nem triste. Aquela sensação de vazio permanecia, e eu tinha uma leve sensação de não estar fazendo exatamente a coisa certa, mas ao mesmo tempo não ter outra alternativa fez a coisa parecer toda muito correta e racional. Eu racionalizei, coloquei dentro das conveniências o nascimento da minha filha.

Na segunda bem cedo cheguei na maternidade no horário combinado. Me despedi de Thiago na recepção, com a sensação de estar sendo levada pra longe de tudo que eu mais queria: meu marido perto de mim. Não consegui chorar. Entrei com minha mãe e 15 minutos depois eu me despedia dela pra ir pro pré - parto. Nesse trajeto eu desabei sozinha. Foi um choro intenso, tão angustiado! Como eu me sentia desamparada! Mal deu tempo de deitar na maca do pré - parto e vieram me buscar. Anestesia, campo, braços amarrados, eu já sabia tudo que estava pra acontecer. E pra mim não estava acontecendo nada, absolutamente nada. Eu não sentia, não ouvia, minha cabeça latejava e o estômago dava voltas. Ouvi um chorinho distante e depois de séculos me apresentaram durante segundos para um bebê e foi cruel: meu vazio, meu desamparo, minha sensação de algo faltava foi maior do que nunca. Aquela emoção que todas descreviam, eu não tive. Sentia como se algo mais ou menos tivesse acontecido, mas nada de especial. Era um vácuo, uma ausência que eu não soube identificar do quê.

Subimos pra quarto e a rotina de visitas das 14 às 17 começou. Foram 5 dias de internamento, longe de casa, longe da pessoa com quem eu deveria estar vivendo tudo aquilo; o pai, meu companheiro, que vinha protocolarmente nos visitar durante as 3 horas. Eu parecia um zumbi, não dormia, tinha de andar pra pegar fraldas, pra pegar água, não tinha ninguém pra conversar, ninguém pra cuidar de mim e eu tinha de cuidar do bebê. Sentia dores horríveis pra subir e descer daquela maca que foi projetada pra quem pelo amor de Deus?! Como colocam aquela coisa de dois andares pra gente subir e descer toda costurada, sem apoio? O leite demorou pra descer e as enfermeiras só diziam: “Vixe, a coisa tá feia!” Tive uns coágulos e não sei por que, elas apertaram minha barriga diversas vezes e eu sentia dor, muita dor. Durante uma madrugada saí no corredor pra pegar fraldas e dei de cara com uns policiais fortemente armados por que uma mulher, tinha parido e jogado o bebê fora, ia ser levado sob custódia do quarto em frente. Depois do 3º dia eu só chorava, queria ir pra casa, odiava aquele lugar. 

Quando Thiago chegava pra visita eu chorava muito, queria fugir dali, nunca tinha me sentido tão sozinha, ficava horas sem ninguém, os dias eram intermináveis... A dor foi minha companheira durante dias a fio. Junto com ela veio um inchaço súbito enorme. Meus pés, minha barriga, tudo ficou o dobro do tamanho de quando eu ainda estava grávida. Meu corpo rejeitou aquela intervenção de todas as formas. E eu só pensava obsessivamente que no outro dia eu iria embora, e como essa hora nunca chegava, fui ficando psicologicamente cada vez mais fragilizada: além das dores físicas, a dor da separação me doía demais. Fui pra casa e tive vários surtos: tive crises de pânico, fiquei alguns momentos sem reconhecer o bebê, uma infelicidade tão grosseira se instalou em mim. Tudo isso só passou com uma compreensão, amor e paciência que ninguém no mundo jamais poderia me dar, só Thiago. Ele me pediu pra procurarmos ajuda diversas vezes, mas eu não queria. Foi muito claro que aqueles dias tão frios no hospital foram o estopim da minha angústia. No meu corpo uma cicatriz grossa, profunda e na minha alma a lembrança daqueles dias tristes, vazios e sem significado perduraram no silêncio durante um bom tempo.

Fiquei grávida de novo em 2011. Não poderia ter momento pior. Estávamos passando pela pior crise conjugal da história deste casal. Lembro que quando eu fui pegar o Beta, chorei muito. Olhava pra Maria Flor e achava ela ainda tão pequena, meu Deus... Financeiramente já havíamos passado por período pior, mas estávamos longe da estabilidade. A notícia caiu como uma bomba na família, ninguém ficou feliz. Minha mãe ficou agindo como se nada tivesse acontecido, era um bebê inexistente. Comecei então a ler, conhecer histórias de outras mulheres que haviam passado por histórias terríveis, de partos roubados, de violências absurdas. Aos poucos, muito lentamente, alimentado por cada relato, o desejo de parir nasceu em mim. Eu queria aquilo. Eu tinha direito a vivenciar meu parto. Não ia deixar que a ignorância roubasse isso de mim, não ia deixar que ninguém me impedisse, principalmente eu mesma. Eu li sobre parto todos os dias desta gestação. Esse conhecimento me movia e eu tinha certeza de que esse era o caminho. Foi quando eu percebi: se eu não soubesse exatamente o que fazer, provavelmente alguém iria fazer tudo por mim.

Fui atrás da primeira possibilidade: uma enfermeira obstetra para um parto domiciliar. Fui conhecê-la, conversamos, Thiago gostou muito dela e eu fiquei feliz. Quando o ano virou a bomba caiu no meu colo: a EO não poderia nos acompanhar. Enfrentei um luto longo, não sabia o que fazer e não conseguia me mobilizar em torno de nada.

Num domingo tive uma crise de dor abdominal absurda, achei que fosse gastrite, mas aquilo doía demais! Marquei uma gastro e descobri muitos cálculos minúsculos na vesícula. A GO que ainda estava me acompanhando foi totalmente contra operar no 5º mês, a gente tinha de esperar nascer. Durante um mês fui parar na emergência umas 6 vezes, era medicada, voltava pra casa, em ciclos. Emagreci 5 kg. Minhas enzimas hepáticas alteraram muito, tive mais uma crise, um cirurgião resolveu me operar: eu não aguentava mais, eu já nem comia e só queria que aquilo acabasse. A GO dizia: “Hellen, se acontecer alguma coisa, é um aborto.” Mas tudo indicava que esperar seria pior. Operamos. Dr. João Ettinger, muito obrigada pela coragem em intervir! Ficamos bem. O tempo foi passando, resolvi sacudir a poeira por que o relógio não ia me esperar. Fomos conhecer a Casa de Parto Natural, mais uma negativa. E aí Maria Flor teve pneumonia. Ficamos internados juntos com ela, eu perambulava pelo hospital com um barrigão de 7 meses, ainda tinha de trabalhar, não sei como eu aguentei... Ela perdeu o acesso umas 6 vezes, o hospital se recusou a colocar ela na bomba de infusão, fui brigar no convênio, briguei no hospital, ela chorava, eu chorava muito, quase enlouqueci. Sim, eu estava vivendo um inferno astral numa gravidez que deveria ser serena, tranquila, com sessões de yoga e meditação. A frustração de estar tão estressada, com tantos problemas, era uma carga pesada demais pra carregar.

Minha última cartada era Marilena. Demorei tanto pra procura-la por que tinha a certeza que não poderíamos pagar pelo parto. Mas eu já tinha resolvido conversar, expor nossa situação, contar nossa história, pedir e acreditar que poderia dar certo com ela. Ela tinha agenda cheia, então fiquei quase um mês aguardando o dia da primeira consulta mergulhada numa ansiedade que me corroia as vísceras. No dia eu estava mais que tensa. Levamos todos os exames, sentei na salinha de espera e pedi. Pedi para as grandes forças que me concedessem trilhar um caminho, algum caminho. Que me dessem uma luz, era minha última esperança! Eu não suportava a possibilidade de ter o bebê num hospital. Depois das crises de vesícula, da cirurgia, da pneumonia de Maria, hospital pra mim era definitivamente um lugar para se sofrer. Ter meu filho lá seria, na melhor das hipóteses, muito angustiante. Muitas pessoas tinham me falado que ela não topava VBAC domiciliar, eu já estava preparada para essa possibilidade, mas tinha colocado pra mim mesma que precisava ouvir mais essa negativa pra me convencer de não seria mesmo aquele o caminho. Mas ela topou, nós pulamos e nos abraçamos no corredor do consultório. Eu não conseguia acreditar, só agradecia.

Nosso filho ia nascer dignamente, na nossa casa. Achei que fosse relaxar, internalizar pra chegada do bebê e conseguir viver finalmente nesses dois últimos meses minha tão sonhada serenidade pré parto. Ledo engano. Eu tinha uma terrible two, a grana tava sempre curta e eu já estava me sentindo esgotada, arrastando as cargas emocionais de tudo que tinha acontecido nos últimos 9 meses. Essa gravidez me trouxe um distanciamento físico de Thiago que ele jamais conseguiu suportar. Ele se ressentia, a gente se desentendia, nada mudava. Apesar disso, ele manteve sempre seu apoio forte. Se eu me mantive de pé foi muito por causa dele. A gente continuava se amando, eu sabia que, intimamente, essa verdade estava nele tanto quanto em mim. Cheguei à reta final com o parto todo resolvido, exames ok, só pra esperar a hora. Mas tinham tantas, tantas coisas que eu queria fazer. Todas elas dependiam de uma grana que a gente não tinha. Foi uma dura que a vida me deu: tudo que importa já estava resolvido, por que eu tinha de me consumir tanto? O que tinha tanto significado pra me roubar a paz? Essas coisas materiais que eu estava almejando tanto fazer, comprar, pagar, iam valer a serenidade do meu espírito? Nem sempre as coisas são exatamente como a gente quer. Eu precisava aprender isso. Nosso filho ia nascer de modo respeitoso, nós íamos conseguir proporcionar a ele uma passagem serena, humana. Fui me despindo de tantas outras necessidades falsas...

Comecei a me sentir triste por não poder dividir tudo isso com as pessoas da família. Eu não sabia qual seria a reação dos pais de Thiago e sabia exatamente qual seria a reação de minha mãe. Não contar nada tinha sido escolha minha desde o início. Precisava manter isso dizendo que ia parir na casa de parto, 20 dias depois da minha DPP. Foquei em Maria e passávamos tempo juntas conversando sobre Levi, vendo roupinhas e assistindo muitos vídeos. Quando cheguei perto das 40 semanas, ela já sabia todos os detalhes: que o irmão ia nascer na água, que mamãe ia gritar, fazer dodói, mas que ia ficar tudo bem. Eu perguntava pra ela: “Tá na hora do seu irmão nascer?” E ela me respondia sorrindo: “Nãooo!”

Conversava com ele todos os dias não chamando, mas dizendo que o aguardava. Que meu coração estava preparado, que ele desse seus sinais. Tinha começado a tomar as cápsulas de folha de framboesa há 5 dias, meio resistente. Sabia que eu ia sentir falta dele na barriga, queria que ele ficasse mais. Aí, que saudade que eu já tava sentindo. Acabei exteriorizando com Thais que eu também estava com medo de não dar conta de dois, do pós parto, das grande mudanças e isso me fez bem. Comecei a fazer uma sessão de yoga, banho de imersão, chá e meditação com Thiago todos os dias antes de dormir. Na segunda, dia 28 de maio, fomos para consulta de 40 semanas. Chorei no consultório por que os pais de Thiago estavam aqui em casa e só iriam embora 3 ou 4 dias depois. Eu queria parir, queria mandar eles embora. Entrei em atrito com Thiago por isso, por tanas coisas, por tudo... Ele me disse: “Pode ter certeza que eu gostaria de ter feito tudo muito diferente.” Aquilo me calou.

Na consulta tudo ótimo, como sempre. Marilena disse que achava que não passava daquela semana, Thiago disse que também não, eu disse que também não. Então estava resolvido. Mais tarde Chenia esteve aqui, fizemos a barriga de gesso e o chá da Naolí, que tomamos sentados no chão na cozinha. Me senti feliz, aconchegada. As preocupações serenaram.

Eu tava pronta pra chegar às 41, embora eu soubesse que precisava me trabalhar pra chegar mais serena às 42. Fiz algumas programações à longo prazo: tirar fotos na quinta dia 31, sair pra jantar com Thiago no sábado dia 2 de junho, fazer acupuntura na sexta. Resolvi ocupar o tempo. Acordei às 5 da matina e fui com Thiago pro trabalho dele. Enquanto ele atendia, caminhei na praça sentindo o cheiro dos eucaliptos e vendo os pássaros. Começou a chover e fomos pra casa de um amigo. Eles iam fazer uma sessão de surf e eu ia caminhar na praia. Abriu um solzinho frio e eu pensei: “Que gostoso meu filho, um sol para lhe recepcionar!” Fotografei a sessão de surf e Thiago tirou fotos minhas com aquele barrigão lindo. Depois Thiago me deixou na casa de Carla para almoçar. Encontrei lá com Chenia, Manu, e Vanessa. As meninas fizeram uma massa integral divina e Carlinha me apresentou para a fatídica pimenta. Aquela já tinha história de ter feito uma amiga dela parir. Cheirei e comi muito. Conversamos sobre parto, fralda de pano e assuntos do tipo. Me despedi das meninas e fui com Vanessa até a casa dela pra pegarmos a piscina que ela ia me emprestar. Reparei que tava sentindo uma cólicazinha chata, nada significativo. Tomei um banho em casa e fui para uma sessão de meditação e yoga. Lá chamei por ele pela primeira e única vez, forte e bem baixinho: “Vem meu filho!”

Voltei pra casa umas 22 hs, exausta! Conversei com Thiago e disse: “Tô achando que pode engatar alguma coisa aí essa noite.” Pura intuição. Deitei e não dormi. Devo ter conseguido dormir 1 hora da manhã e acordei perto de 3:30. Engraçado que eu acordei, abri os olhos e só depois de um tempo senti um líquido saindo. Chamei Thiago e disse: “Amor, acho que a bolsa estourou!” Como eu sonhei dizer isso!!! A empolgação tava na minha voz. Ele acendeu a luz e quando eu levantei desceu aquela água, não muito, bem clarinha. Fui tomar um banho quente e as contrações começaram na mesma hora. Maria acabou acordando com o movimento e ficamos dançando e brincando no quarto. Eu perguntei pra Maria: “Tá no hora do seu irmão chegar?” Ela me respondeu: “Tááá!”


6 horas liguei pra Chenia e ainda tava conseguindo falar de boa. Avisei que tava indo pra feira e quis saber da programação dela. No carro foi um pesadelo! Ainda tava bem suportável, mas já tava fazendo cara feia e ficar sentada não estava lá muito confortável. Comprei umas frutas e tentei fazer cara de paisagem para o pessoal conhecido da feira. Voltamos pra casa e eu já fui avisando: “Vou direto pra banheiro.” Liguei pra Suzana, uma amiga, ela viria ficar com Flor. A resistência do chuveiro queimou e eu tive de ir pro outro. No meio da casa estavam devidamente instalados: meu sogro, minha sogra e meu cunhado. É Hellen, as coisas não são sempre como a gente quer. Thiago disse que ia resolver, ia avisar pra eles saírem conforme o combinado, por que a história seria de que íamos ficar aqui até chegar a hora de ir pro hospital, ninguém sabia dos nossos planos reais. Eu sentei na bola no chuveiro e avisei: “Amor, vou PRECISAR me desligar de tudo!” Thiago ligou pra Marilena, que ligou pra Suzana (a enfermeira). A gente tinha tentado monitorar as contrações, mas Thiago ficou elétrico, entrava, saía, ligava o cronômetro, esquecia de desligar por que Maria tava por perto. E eu não tava dando a mínima pra aquilo. Liguei pra Chenia de novo já aos berros: “Onde você tá? Não demora!!!” Suzana minha amiga chegou, me abraçou e eu agradeci por ela estar lá. Ela ficaria responsável por sair com Maria caso ela não ficasse bem. Ela me fez companhia e logo depois Chenia chegou. Lembro de não ver exatamente que horas ela entrou, eu já não estava vendo nada com muita clareza. Estávamos dentro do meu quarto, meio escuro e eu me sentia abrigada ali. Não tinha conseguido separar muitas músicas, mas as poucas que eu tinha separado tocavam em loop, não teria sido tão perfeito se tivesse sido proposital. Chenia pressionava e massageava minha lombar e eu estava grata por ela estar ali. Eu a tinha escolhido. Maria entrava, vinha me ver, conversar e eu dizia pra ela sorrindo: “Seu irmão está chegando filha!” Eu conversava entre as contrações e respeitava minhas sensações. Estou com frio, estou com calor, quero água, alguma coisa pra comer. Comi um caqui e tomei água de coco. Não sentia vontade de comer mais nada. Eu sabia que precisava me mexer, mas queria descansar um pouco entre as contrações. Deitei de lado e uma contração me pegou. Céus, nada podia ser pior do que aquilo. Estava respirando e vocalizando bem durante a contração, vi logo no início como aquilo seria importante e me esforcei ao máximo pra incorporar um padrão de respiração equilibrado. Fiquei de quatro debruçada na cama e senti vontade de vomitar. Eu odeio vomitar. Mas respeitei aquela sensação, não resisti e botei tudo pra fora. Nunca me senti tão bem vomitando, como me limpou! Meus canais estavam se abrindo de uma maneira selvagem. Eu ainda estava lutando nesse momento. Chenia me disse: “Você está se debatendo demais na contração, lutando contra, se entrega!” Eu interiorizei, meu corpo precisava consentir, permitir aquela passagem. Eu era apenas o portal. Suzana chegou e fomos fazer um exame de toque. Eu até aquele momento não tinha parado pra pensar no horário, não sabia de quanto em quanto tempo as contrações vinham, nem quanto elas duravam, nem tinha ficado pressupondo com quanto de dilatação eu estava. Essas coisas não me interessavam. Eu estava vivendo cada contração, sem pensar em nada. Mas naquela hora eu ia saber a quantas estávamos. Serenei meu espírito: aceito o que vier. 6 cm. Não comemorei. Ainda tinha muita coisa pela frente. Voltei a me concentrar em mim. Os batimentos do bebê estavam bem. Minha pressão não. Ouvi Suzana dizer: “Chenia, faz um suco de chuchu pra mim?” Não me abalei. Eu tinha certeza de que não era nada, estava me sentindo ótima. Bebi o suco, fiz xixi. Aferimos de novo, normal. Em nenhum momento eu permiti que nenhum sentimento ou pensamento contrário sequer me sondasse, eu estava protegida. Era a oração que eu repeti tantas vezes durante a gravidez: “Mil cairão ao teu lado, dez mil a tua direita. Mas tú não serás atingido...”

Suzana me fez um escalda pés fantástico e uma massagem nos pés que fez Thiago querer alguém pra doular ele também. Cantamos Sabemos Parir que estava tocando: eu tinha feito um ninho pra parir, cheia de energias fortes e mulheres maravilhosas. Chenia me banhou com uma infusão de algodoeiro e quando Marilena chegou eu estava de quatro no banheiro. Ela identificou todos os meus sinais, não precisava de nenhum toque. Fui pra banheira. Dormi entre as contrações debruçada na borda da banheira. Maria entrou na piscina e jogou água em mim com um potinho, fiquei imensamente grata por ela estar bem. Que presente! Thiago segurou minha mão e eu ri depois da contração quando vi que ele tava embaixo da mesa por que era o único jeito de segurar minha mão onde eu estava. Me desconectei totalmente do exterior. Marilena me disse que se eu quisesse ver onde ele estava nós poderíamos ali mesmo. Aguardei um pouco e quis saber sim. Ele estava perto, muito perto. As contrações aumentaram muito e eu já tava dando uns urros de lá de dentro. Expurgando, renascendo, lavando! Não tive noção de tempo, não vi nada do que estava acontecendo no ambiente. A cada contração eu o chamava e ele atendia o meu chamado. Quando eu consegui sentir o cabelinho, uma empolgação tomou conta de mim. A cada contração sentia a cabeça mais perto e aquilo me deu uma força que quando a contração vinha eu dizia: “Vamos lá!” Thiago segurava minha mão pra me dar tração e eu comecei a fazer força de cócoras. Quando senti o cabelinho dele já na água eu ri, não tinha sofrimento! Ele ia nascer. Pedi por uma contração das boas e chamei: “Vem filhooo!” Quando a cabeça coroou consegui não fazer mais força. Fiquei anestesiada, era maravilhoso!!! Quando a cabeça saiu não segurei a vontade e fiz uma forcinha pra sair o corpo. Me valeu a laceração. Ele nasceu lindo! Veio direto pra mim, a irmã ficou encantada, o pai chorou de alegria! Nunca experimentei uma felicidade tão plena e uma vitória tão completa. Minha fé venceu!

Escrevi na parede do meu quarto algumas palavras: amor, instinto, interiorização, entrega e paciência. Fiquei triste quando cheguei em casa terça e vi que meu sogro tinha pintado a parede e apagado as palavras. Mas não teve problema, elas já estavam dentro de mim.